terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Dois


Sossegados
os corpos que repousam lado a lado, após a invasão dilacerada da alma.
O gozo penetra pelos poros mais íntimos, após percorrer longas distâncias em busca de festa para o seu sentido.
São duas crianças,
os corpos. Duas crianças saciadas, adormecidas no berço.
Dois bichos,
fartos. Expostos na vulnerabilidade da carne animal.
Dois poemas,
metrificados. Após serem devorados pela rima carnal.
Dois passarinhos descansados do vôo.
Duas pombas, dois corpos da paz.
Duas almas consumidas. Abertas como flores que se despetalam quando se apetecem.
Nuas e dominadas. Sem máscara ou qualquer tipo de disfarce.
Dois corpos. Plantados a uma distância que permite o abraço dos galhos. Duas árvores.
Dois olhos que se entregam. E se consolam.
Ou não, se fugazes.

sábado, 16 de janeiro de 2010

A menina e o pássaro encantado

"Era uma vez uma menina que amava um pássaro encantado que sempre a visitava e lhe contava estórias, o pássaro a fazia imensamente feliz. Mas sempre chegava um momento quando o pássaro dizia: "Tenho de ir". A menina chorava porque amava o pássaro e não queria que ele partisse. "Menina", disse-lhe o pássaro, "aprenda o que vou lhe ensinar: eu só sou encantado por causa da ausência. É na ausência que a saudade vive. E a saudade é um perfume que torna encantados a todos os que o sentem. Quem tem saudades está amando. Tenho de partir para que a saudade exista e para que eu continue a amá-la, e você continue a me amar..." E partia. A menina, sofrendo a dor da saudade, maquinou um plano: quando o pássaro voltou e lhe contou estórias e foi dormir, ela o prendeu numa gaiola de prata dizendo: "Agora ele será meu para sempre". Mas não foi isso que aconteceu. O pássaro, sem poder voar, perdeu as cores, perdeu o brilho, perdeu a alegria, não mais tinha estórias para contar. E o amor acabou. Levou tempo para que a menina percebesse que ela não amava aquele pássaro engaiolado. O pássaro que ela amava era o pássaro que voava livre e voltava quando queria. E ela soltou o pássaro que voou para longe.” (Rubem Alves)

E voa até hoje.. percorrendo a essência da menina.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010


"Se você quiser eu danço com você no pó da estrada
Pó, poeira, ventania
Se você soltar o pé na estrada, pó, poeira
Eu danço com você o que você dançar

Se você deixar o sol bater nos seus cabelos verdes

Sol, sereno, ouro e prata
Sai e vem comigo
Sol, semente, madrugada
Eu vivo em qualquer parte do seu coração

Se você deixar o coração bater sem medo

Se você quiser eu danço com você
Meu nome é nuvem, pó, poeira, movimento
O meu nome é nuvem
Ventania, flor de vento, madrugada
Eu danço com você o que você dançar

Se você deixar o coração bater sem medo." (Lô Borges)


Ela - meu Sol Girassol
Assistiu à primavera concebida pelas intrínsecas sementes dos meus óvulos suados de luz.
A criança parida enxergou-a como madrinha, segurou suas mãos maduras e permitiu que acompanhasse a dança, abraçada com o seu coração.





                                        
                              

domingo, 3 de janeiro de 2010

O Parto


Na febre da dança, deu-se à luz o estado da alma.
A primavera interior deu o seu primeiro choro de vida:
- Hei de querer ser eterna!
Restou-me concedê-la.
Existe uma dimensão das coisas dentro de mim, sobretudo da beleza, que se recusa a morrer. Só eu a encontro. Não cabe a absolutamente ninguém censurá-la. Prefiro ser fiel a mim mesma. Não faço questão de ser normal.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Primavera Interior


Com os olhos úmidos de amor, repouso todos os dias diante do mar interior que grita:
- Vida!
O lapidar da alma se faz profundamente, como um castelo de areia sendo construído, grão em grão, embaixo d'água. Nesse castelo, o canto de guerra é o sentimento - o sentimento nu, completamente despido, sem nenhuma influência, tal como uma criança recém-nascida. Às vezes, prefiro não nomeá-lo por medo de que o nome o transforme, roube sua identidade. Nessas ocasiões, prefiro deixá-lo sem registro, totalmente cru. É o meu melhor alimento. Respeito o seu fluxo sem contrariá-lo. Assim, revelam-se os caminhos naturais para cada estação da alma. Sinto-me rica por carregar, humildemente, o peso do sentimento que se faz plural, equivalente a um mar. Aprendo a conviver com o seu curso.
Esse mar, ao mesmo tempo é de flores - gaguejadas - transpiradas e colhidas antes do sol ir embora.
Brindo, com sabedoria, a chegada da minha primeira primavera interior.