domingo, 9 de maio de 2010
Bigger than my body!
O ritual de transbordar interiormente é gritante e ensurdecedor como nunca. Sou capaz de ouvir o eco em qualquer esquina do meu coração.
sábado, 17 de abril de 2010
Não sei quantas almas tenho (Fernando Pessoa)
"Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu."
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu."
Enfrento, sem nenhuma outra ajuda, além da própria cabeça e do coração, o vazio - tão jovem - deixado pelo poeta que me levou nos braços, por tantas noites, ao encontro do verso que esperava para adormecer comigo. Ensinou-me o poeta, que eu poderia recriar o universo segundo uma nova dimensão, na qual seria necessário pintar-me de ousadia para, só assim, dar vida aos meus sonhos e convicções e fazer da sensibilidade o ponto máximo do meu projeto de vida.
O homem das cores sábias deixou de ser palpável. É energia que, derramada sobre mim, transborda.
Eu bebi as cores do meu pai e trouxe comigo. Elas, que compõem o cenário da minha alma.
O cenário das mais fortes emoções, que gritam detrás das cortinas vermelhas que se abrem a cada espetáculo de sentimentos. Eles esperam ser aplaudidos de pé.
Quero ver uma plateia de bichos homens, entre eles, o mais humano, que irá explorar a densa selva de cores. O que baterá a última palma, ao fim do espetáculo, e permanecerá no mesmo local, inconformado com o fechar das cortinas, esperando a hora da revelação - quando os sentimentos sairão daquele palco nus e crus, cansados, sem maquiagem, completamente desbotados, e serão convidados a passar a noite sob os cuidados da lua. Quero que bichos se cheguem com mansidão ao bicho manso, doce e meramente humano que eu tanto procuro ser. Quero, como uma selvagem em busca de abrigo no meio da tempestade, o único dia em que me encontrarão. Tão livre, e sozinha na natureza. Na mais pura e antiga condição humana, nua da cabeça aos pés.
domingo, 21 de março de 2010
quinta-feira, 11 de março de 2010
A menina caminha. Ao invés de parar, ela dança pra descansar. A tal menina teme tudo que tire sua paz interior. A menina tem medo. Ela chora muitas vezes sem saber o porquê, chora onde estiver. Chora todinha por dentro. Chora de encantamento por qualquer coisa que lhe transmita um significado. A menina carrega uma carga de sensibilidade tão imensa, que até ela própria se espanta como tudo isso pode fluir dentro do seu coração de carne.
A menina sangra. Sangra porque carrega o vermelho da arte. Ama o desconhecido, ama alguma coisa grandiosa que ela ainda não sabe o que é. Alguma coisa que a espera em alguma dessas paradas, durante a sua caminhada. A menina sente. Sente que algo espera por ela. Algo que não pode ser tocado, ouvido, tampouco descrito.
Olha para sua sombra enquanto caminha. Olha e vê todos aqueles que estiveram junto dela, todos aqueles refletidos na mesma areia, no mesmo mundo. Todos aqueles homens. Todos eles que, um dia, já foram responsáveis por tirar a paz do seu coração. Mas responsáveis também por lhe fazerem feliz em algum momento de sua caminhada. Esta tão vulnerável muitas vezes, porque a menina encontra o pai todos os dias quando olha para dentro de si. O pai e "sua alegria escandalosa, vitoriosa por não ter vergonha de aprender como se goza." A menina quer toda a pouca castidade do pai, "toda a sua louca liberdade, toda essa vontade de passar dos seus limites e ir além." Quantas saudades ela sente desse pássaro!
Essa menina aprendeu com ele, até os 14 anos, que um homem realizado tem que ter escrito um livro, plantado uma árvore e constituído uma família. O pai fez tudo isso. E a alma da menina sorri.
A menina quer criar uma passarela porque tem sonhos e quer que as pessoas os percebam. Essa menina tem o sonho de viver no circo. É só um jeito de viver nesse mundo de mágicas e mudar o espetáculo da vida. Ela quer sentir "a evolução da liberdade até o dia clarear." Quer dançar "na corda bamba de sombrinha mesmo sabendo que em cada passo dessa linha pode se machucar." Mas a menina quer tentar. Quer o equilíbrio da bailarina que fora até os 12 anos de idade. Quer se apaixonar por um palhaço malabarista. É um dos maiores sonhos da menina a vida no picadeiro.
A menina quer e precisa dos pés da mãe para abrir todos os seus caminhos. A mãe que começa com Maria, nome tão admirado pela menina. Ela o sente forte tal como a mãe. E para essa mãe, em seu último aniversário, a menina escreveu: Voa, passarinha, pois a vida veio ver-te. Mas me leva sempre contigo, em qualquer instante de pouso.
A menina também admira os artistas. Um de seus sonhos é casar-se com um deles. Ela gosta que lhe pintem a alma, fotografem sua essência, escrevam para o seu coração. A menina quer ser descoberta. Cansou-se das conquistas corriqueiras, criou pavor pela superficialidade alheia. Hoje, anda com um escudo, mas não deixa de lado a arte de ser livre.
A mulher quer morar com o seu marido no Poço da Panela, andar de bicicleta todos os dias no fim da tarde e continuar regando a sua primavera interior para o resto da vida. Ela ignora o fim do mundo em 2012 ou discussões do gênero, pois quer continuar sonhando. Acredita que o mundo sempre existirá enquanto o homem não esquecer ou desistir dos seus sonhos.
Enquanto a menina passa a tarde no balanço do parque com as amigas, a mulher prefere entrar pela madrugada embriagando-se de felicidade no boteco mais barato do Recife, deixando a marca do seu batom vermelho nos copos de vidro do recinto, absorvendo a energia do ambiente que lhe deixa tão à flor de si mesma. Ela presta atenção aos personagens da noite, tem um verdadeiro fascínio por eles. Os bêbados, poetas, ladrões, mendigos, prostitutas. Estuda mentalmente a alma das ruas durante a madrugada. Ela quer conhecer sempre.
A menina, a mulher querem experimentar. Querem continuar tendo a sensação de que falta algo em suas vidas que não sabem o que é e, talvez, nem queiram descobrir. Eu acho que elas preferem que a tal coisa mantenha-se oculta, para, desse jeito, poderem dançar em todos os salões, visitar o abraço de todos os mundos. Mas querem se proteger, também. Como essa menina mulher se cansa de querer ser. Às vezes ela quer só o quarto dela, porque é o mundo que só ela compreende - o único lugar que tem o poder de transformar ao seu jeito. Ela põe suas músicas prediletas, acende um incenso ou o réchaud amarelo e procura se comunicar com os astros, deitada no tapete verde. Pinta isso, cola aquilo, mexe no painel de fotos, enche as paredes de quadros e figuras que carregam uma história, um espírito singular. Abre uma cerveja de vez em quando. Ela tem uma máquina de escrever em cima do birô - é apaixonada por coisas antigas. A máquina de escrever é da sua mãe, guardada há mais de 25 anos...
A menina, a mulher querem experimentar. Querem continuar tendo a sensação de que falta algo em suas vidas que não sabem o que é e, talvez, nem queiram descobrir. Eu acho que elas preferem que a tal coisa mantenha-se oculta, para, desse jeito, poderem dançar em todos os salões, visitar o abraço de todos os mundos. Mas querem se proteger, também. Como essa menina mulher se cansa de querer ser. Às vezes ela quer só o quarto dela, porque é o mundo que só ela compreende - o único lugar que tem o poder de transformar ao seu jeito. Ela põe suas músicas prediletas, acende um incenso ou o réchaud amarelo e procura se comunicar com os astros, deitada no tapete verde. Pinta isso, cola aquilo, mexe no painel de fotos, enche as paredes de quadros e figuras que carregam uma história, um espírito singular. Abre uma cerveja de vez em quando. Ela tem uma máquina de escrever em cima do birô - é apaixonada por coisas antigas. A máquina de escrever é da sua mãe, guardada há mais de 25 anos...
A menina e a mulher caminham juntas, lado a lado, de mãos dadas - as duas. Às vezes, elas correm, ansiosas, em busca do que está além do material. E até tropeçam. Mas a menina, por ser mais nova, levanta-se primeiro e ajuda a mulher. Elas seguem dessa forma, em direção as galáxias cintilantes que as atraem.
Elas querem encontrar a Pasárgada de cada uma.
quarta-feira, 3 de março de 2010
O (re)encontro da energia com a saudade
Os pincéis sujos da última noite ainda desbotam, mergulhados no mar de cores claras. As cores usadas no contorno dos dois corpos, que sentados, assistem, lado a lado, a mais um encontro encantado. Já que ninguém cometeu a loucura de assassinar a distância (ainda), eu e ele abrimos os olhos da alma para a magia que enche a nossa atmosfera de bolhas de sabão que bailam no ar, transformando nosso momento num cenário de sonhos. Afinal, o nosso mundo tem o tamanho dos nossos sonhos. Dessa vez, pintamos o reencontro da energia com a saudade, amanhecemos junto com o dia, rompemos a superficialidade, abraçamos a imensidão de nossos desejos, olhamos nos olhos buscando a confirmação dessa corrente particular. Absorvido. "Eu não quero gastar esse amor, eu quero lembrar dele assim, pra sempre."
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Dois
Sossegados
os corpos que repousam lado a lado, após a invasão dilacerada da alma.
O gozo penetra pelos poros mais íntimos, após percorrer longas distâncias em busca de festa para o seu sentido.
São duas crianças,
os corpos. Duas crianças saciadas, adormecidas no berço.
Dois bichos,
fartos. Expostos na vulnerabilidade da carne animal.
Dois poemas,
metrificados. Após serem devorados pela rima carnal.
Dois passarinhos descansados do vôo.
Duas pombas, dois corpos da paz.
Duas almas consumidas. Abertas como flores que se despetalam quando se apetecem.
Nuas e dominadas. Sem máscara ou qualquer tipo de disfarce.
Dois corpos. Plantados a uma distância que permite o abraço dos galhos. Duas árvores.
Dois olhos que se entregam. E se consolam.
Ou não, se fugazes.
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